Este é o segundo texto que publico de maneira mais pessoal e profunda sobre os sinais que registrei na transição de 2025 para 2026. O primeiro texto publicado, na newsletter da Livework, apresentou brevemente todos os sinais (veja aqui). O anterior a este, que você encontra aqui, abordou “A erosão da verdade compartilhada”.
Um sinal é uma tendência potencial ainda não confirmada. Enquanto tendências são movimentos com direção clara e evidências robustas, sinais são emergentes e sujeitos a muitas interpretações. Meu objetivo com o registro de sinais é refletir sobre as mudanças que devem impactar nossas vidas de forma substancial no futuro. São movimentos que partem de ou levam a mudanças em comportamentos, tecnologias e/ou negócios. Uma mudança significativa em uma costuma impactar as outras duas.
Boa leitura!
O (quase) fim da barreira dos idiomas
| Quando a Torre de Babel encontra uma resposta tecnológica
Reuniões com dublagem ao vivo, assistentes que respondem em qualquer língua, óculos que exibem legendas instantâneas, fones que traduzem conversas em tempo real. Compreender e ser compreendido deixa de ser um benefício de uma minoria políglota ou de quem usa intérpretes para se tornar um ato esperado praticamente em todo lugar onde haja um aparelho inteligente (1).
O “quase” no título do sinal é intencional. Por mais que as traduções instantâneas funcionem bem para transações utilitárias, como reservar um hotel, pedir comida ou revisar um contrato, nuances culturais, humor, duplos sentidos e outras riquezas da linguagem que vão além da mera transmissão de dados ainda não foram domadas pelos algoritmos. O “ainda” da frase anterior também é intencional, mas estamos quase lá… (2)
O impacto no mundo dos negócios hoje é perceptível. A barreira do idioma já não torna mercados inacessíveis, nem mesmo aqueles que não falam inglês. Aliás, é bem possível que o inglês deixe de ser o território neutro que todos precisam dominar. Equipes distribuídas globalmente não vão mais precisar de uma língua comum. Cada pessoa com o seu dialeto, e tudo certo. E o conhecimento da humanidade, antes fragmentado e reservado a pessoas aptas, nos idiomas em que foi produzido, torna-se universalmente disponível. (3)
A Torre de Babel, na narrativa bíblica, foi destruída quando humanos tentaram alcançar os céus por meio de uma tecnologia construtiva. Deus os puniu com a multiplicidade de línguas, impedindo a cooperação. Se a IA está desfazendo essa punição, eu não sei. Mas, se for isso, talvez seja ela mesma ou a AGI (Inteligência Artificial Geral), o equivalente à torre e à grande construção de nossos tempos?
Notas de rodapé:
(1) Em 2025, o Google Meet lançou dublagem automática em reuniões de vídeo (TechChrunch), a Meta exibiu óculos com legendas traduzidas no campo de visão (Slator), e fones como os da Timekettle passaram a cobrir 43 idiomas com seleção automática do melhor motor de IA (Gizmodo).
(2) O mercado de tradução automática cresceu 31% em um único ano, atingindo US$ 1,55 bilhão em 2023, mas textos complexos e culturalmente dependentes continuam sendo pontos fracos identificados por especialistas (AbroadLink). Em linha com o anterior, entre os profissionais que usaram tradução automática ou LLMs em 2025 , 90 a 98% ainda realizam algum nível de pós-edição humana (Slator).
(3) Pesquisadores da Universidade de Queensland, em artigo publicado no PLOS Biology em junho de 2025, descrevem dois cenários possíveis: um em que o inglês permanece central, mas a IA reduz as barreiras de acesso, e outro em que cada pessoa escreve, lê e revisa em sua própria língua, e a tradução por IA torna o inglês dispensável como idioma único da ciência (Mind). Como observa um artigo da Fast Company, a tradução por IA pode ajudar a superar desigualdades linguísticas globais, permitindo que todos acessem informações em seu idioma nativo (Fast Company). Até porque, 60% dos consumidores raramente ou nunca compram em sites exclusivamente em inglês, e 73% preferem comprar em sites que ofereçam informações em seu próprio idioma (Weglot).
