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  • Clareza e intencionalidade para cada tipo de experiência

    Clareza e intencionalidade para cada tipo de experiência

    Às vezes o encantamento está em ser invisível

    Não conheço ninguém que faça um Pix mais pelo prazer da transação do que pela necessidade de transferir dinheiro de sua conta para a de outra pessoa ou instituição. A expectativa de praticamente qualquer pessoa é que a transação seja realizada o mais rapidamente e facilmente possível. Do outro lado do espectro, quando vamos ao show da nossa banda favorita, trata-se de uma daquelas experiências pelas quais ansiamos e não queremos que acabem nunca.

    Work or pleasure? Essa era uma pergunta clássica sobre viagens, e podemos encontrar, escondida nela , uma divisão de intenções pouco abordada por quem trabalha com a experiência do cliente. Existem dois extremos valiosos para classificar experiências: as autotélicas (como o show) são aquelas que carregam valor em si mesmas, enquanto as utilitárias (como o Pix) são apenas meios para outros fins, e nas quais a eficiência deveria reinar absoluta.

    É claro que uma determinada experiência pode situar-se em algum ponto do espectro entre o puramente autotélico e o utilitário. Exatamente por esse motivo, perseguir cegamente métricas de principalidade ou de atenção, como o tempo que alguém passa no seu aplicativo, nem sempre é positivo. Por exemplo, quando o objetivo é transferir dinheiro ou comprar algo relacionado a uma necessidade imediata, queremos fazer isso rapidamente.

    O erro fatal de muitas organizações é tentar transformar interações que deveriam ser utilitárias em “experiências uau”, ignorando que esses usuários querem simplesmente resolver seus problemas e seguir suas vidas. Essa clareza de intencionalidade até está presente em algumas instituições, mas ainda é rara.

    Em um projeto para definir o conceito da classe executiva de uma linha aérea, concluímos que poucas e melhores interações seriam o ideal para os passageiros. Neste caso, a intenção de priorizar o descanso trouxe clareza para que recomendássemos com segurança que o papel da tripulação fosse quase invisível em um serviço que costuma pecar pelo excesso de contato (high-touch). Foi a grande sacada que levou o NPS do serviço a subir 30 pontos.

    A maestria de quem trabalha na área está em identificar os raros momentos em que o ordinário pode (e deve) tornar-se memorável, assim como quando não tentar forçar o encantamento onde se busca apenas eficiência. Reconhecer essa diferença é o primeiro passo. Logo a seguir, vem o mais difícil: promover o alinhamento entre as diferentes áreas para uma implementação consistente, uma operação impecável e a evolução contínua do serviço.

  • A interface única se aproxima?

    A interface única se aproxima?

    O fim da era de “um app para cada propósito”

    Em 2017, especulei sobre o que aconteceria quando assistentes virtuais (naquela época, Siri e Alexa) se tornassem realmente úteis. A visão evolutiva traria um assistente que pudesse comprar produtos, reservar passagens, agendar compromissos e acessar qualquer serviço por nós, tornando-se um intermediário universal de todos os tipos de serviço.Siri e Alexa não chegaram lá (1), mas a ideia, que naquele momento parecia distante, permaneceu.

    Quase uma década depois, o cenário que descrevi começa a se materializar. O Google lançou, no começo de 2026, o Universal Commerce Protocol (2), um padrão aberto para comércio mediado por IA. A OpenAI habilitou buscas, recomendações e compras diretamente no ChatGPT (3). E a Anthropic lançou o Claude Cowork, um agente que acessa arquivos e aplicativos no computador do usuário para executar tarefas complexas. Os assistentes não estão mais restritos a responder perguntas em um chat, mas começam a agir por nós.

    A analogia mais instrutiva é com o último grande salto tecnológico: o iPhone. O smartphone da Apple absorveu a câmera, o walkman, o cartão de crédito, o GPS, e vários outros itens. Os assistentes de IA prometem algo parecido, mas numa camada diferente. Em vez de consolidarem dispositivos físicos, é possível que façam isso com interfaces de software, sites e aplicativos de terceiros. Os serviços por trás deles continuarão existindo, o que deve mudar é a porta de entrada. Ao que tudo indica, vamos descobrir restaurantes, comparar planos de saúde, contratar serviços de streaming e comprar passagens aéreas sem sair do assistente.

    A outra hipótese que enxergo é a de copilotos embarcados em serviços. É possível que vejamos agentes transitando entre aplicativos levando informações de um para o outro, como o Claude Cowork já faz nos computadores. Por um tempo, as duas possibilidades coexistirão, mas a tendência de concentração na interface do assistente parece mais forte, pois quanto mais ele resolver sem precisar abrir outro aplicativo, maior a conveniência para nós, e mais difícil será convencer usuários a saírem dali. Dessa forma, a corrida das empresas pode se tornar, agora, a de habilitar seus serviços dentro de assistentes, em vez de inovar seus próprios canais.

    Para os negócios, a implicação se desdobra em duas frentes:

    A primeira é operacional. Os serviços precisarão ser “plugáveis” aos assistentes: APIs abertas, conectores padronizados, conteúdos e funcionalidades estruturados para máquinas. A navegabilidade por humanos, que dominou a estratégia digital por 25 anos, perde relevância. Já se produz cada vez mais conteúdo para motores de resposta (AEO ou GEO) em vez de para mecanismos de busca (SEO), o que significa que, cada vez mais, estamos produzindo conteúdos para máquinas, na expectativa de que sejam levados aos humanos. A mesma lógica agora se aplica à experiência: se seus clientes não visitarem mais seu site diretamente, você precisará garantir que os assistentes saibam acionar seus serviços. E, assim, em um cenário extremo, o problema de criar e manter interfaces pode deixar de existir para a maioria das empresas.

    A segunda frente é estratégica e mais desconfortável. Com o assistente monopolizando totalmente a relação, as empresas perderão o contato direto com seus clientes e, com ele, o poder de influenciar suas experiências. Quando um assistente recomenda três restaurantes, o usuário tende a vê-lo como um conselho de um amigo informado, não como uma publicidade paga. Só que a curadoria é uma caixa-preta: não se sabe que critérios foram usados, se houve viés comercial ou quais opções ficaram de fora. Quem ganhar influência nessa curadoria ganhará influência no mercado.

    O ano de 2025 já mostrou sinais concretos dessa transição. O ChatGPT lançou o equivalente a uma loja de aplicativos semelhante à App Store em 2008, com Walmart, Target e Etsy entre os primeiros parceiros de comércio integrado. O protocolo do Google foi concebido para que qualquer agente de IA possa completar transações com lojistas. E a explosão de integrações nesses sistemas não dá sinais de desaceleração. Resta saber o quanto as empresas estarão dispostas a abrir mão da relação direta com seus clientes. Mas, olhando para o ritmo dos últimos tempos, minha principal dúvida é se eles terão escolha e até quando.


    Notas de rodapé:

    (1) O lançamento da Alexa+ em 2026 para seus clientes nos EUA é um ponto a ser observado, assim como a incorporação do Gemini do Google à Siri, prevista para esse ano.

    (2) O Universal Commerce Protocol (UCP) foi lançado pelo Google na conferência NRF em janeiro de 2026 (TechCrunch), sendo codesenvolvido com Shopify, Etsy, Wayfair, Target e Walmart, e endossado por mais de 20 parceiros, incluindo Visa, Mastercard e Stripe (Google).

    (3) Em setembro de 2025, a OpenAI lançou o Instant Checkout no ChatGPT, usando o Agentic Commerce Protocol desenvolvido com a Stripe, permitindo compras diretas de vendedores Etsy e mais de um milhão de lojistas Shopify (OpenAI).

  • O (quase) fim da barreira dos idiomas

    O (quase) fim da barreira dos idiomas

    Este é o segundo texto que publico de maneira mais pessoal e profunda sobre os sinais que registrei na transição de 2025 para 2026. O primeiro texto publicado, na newsletter da Livework, apresentou brevemente todos os sinais (veja aqui). O anterior a este, que você encontra aqui, abordou “A erosão da verdade compartilhada”.

    Um sinal é uma tendência potencial ainda não confirmada. Enquanto tendências são movimentos com direção clara e evidências robustas, sinais são emergentes e sujeitos a muitas interpretações. Meu objetivo com o registro de sinais é refletir sobre as mudanças que devem impactar nossas vidas de forma substancial no futuro. São movimentos que partem de ou levam a mudanças em comportamentos, tecnologias e/ou negócios. Uma mudança significativa em uma costuma impactar as outras duas.

    Boa leitura!


    O (quase) fim da barreira dos idiomas

    | Quando a Torre de Babel encontra uma resposta tecnológica

    Reuniões com dublagem ao vivo, assistentes que respondem em qualquer língua, óculos que exibem legendas instantâneas, fones que traduzem conversas em tempo real. Compreender e ser compreendido deixa de ser um benefício de uma minoria políglota ou de quem usa intérpretes para se tornar um ato esperado praticamente em todo lugar onde haja um aparelho inteligente (1).

    O “quase” no título do sinal é intencional. Por mais que as traduções instantâneas funcionem bem para transações utilitárias, como reservar um hotel, pedir comida ou revisar um contrato, nuances culturais, humor, duplos sentidos e outras riquezas da linguagem que vão além da mera transmissão de dados ainda não foram domadas pelos algoritmos. O “ainda” da frase anterior também é intencional, mas estamos quase lá… (2)

    O impacto no mundo dos negócios hoje é perceptível. A barreira do idioma já não torna mercados inacessíveis, nem mesmo aqueles que não falam inglês. Aliás, é bem possível que o inglês deixe de ser o território neutro que todos precisam dominar. Equipes distribuídas globalmente não vão mais precisar de uma língua comum. Cada pessoa com o seu dialeto, e tudo certo. E o conhecimento da humanidade, antes fragmentado e reservado a pessoas aptas, nos idiomas em que foi produzido, torna-se universalmente disponível. (3)

    A Torre de Babel, na narrativa bíblica, foi destruída quando humanos tentaram alcançar os céus por meio de uma tecnologia construtiva. Deus os puniu com a multiplicidade de línguas, impedindo a cooperação. Se a IA está desfazendo essa punição, eu não sei. Mas, se for isso, talvez seja ela mesma ou a AGI (Inteligência Artificial Geral), o equivalente à torre e à grande construção de nossos tempos?


    Notas de rodapé:

    (1) Em 2025, o Google Meet lançou dublagem automática em reuniões de vídeo (TechChrunch), a Meta exibiu óculos com legendas traduzidas no campo de visão (Slator), e fones como os da Timekettle passaram a cobrir 43 idiomas com seleção automática do melhor motor de IA (Gizmodo).

    (2) O mercado de tradução automática cresceu 31% em um único ano, atingindo US$ 1,55 bilhão em 2023, mas textos complexos e culturalmente dependentes continuam sendo pontos fracos identificados por especialistas (AbroadLink). Em linha com o anterior, entre os profissionais que usaram tradução automática ou LLMs  em 2025 , 90 a 98% ainda realizam algum nível de pós-edição humana (Slator).

    (3) Pesquisadores da Universidade de Queensland, em artigo publicado no PLOS Biology em junho de 2025, descrevem dois cenários possíveis: um em que o inglês permanece central, mas a IA reduz as barreiras de acesso, e outro em que cada pessoa escreve, lê e revisa em sua própria língua, e a tradução por IA torna o inglês dispensável como idioma único da ciência (Mind). Como observa um artigo da Fast Company, a tradução por IA pode ajudar a superar desigualdades linguísticas globais, permitindo que todos acessem informações em seu idioma nativo (Fast Company).  Até porque, 60% dos consumidores raramente ou nunca compram em sites exclusivamente em inglês, e 73% preferem comprar em sites que ofereçam informações em seu próprio idioma (Weglot).