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  • 6. O ocaso da privacidade e do efêmero

    6. O ocaso da privacidade e do efêmero

    Quando o benefício supera o desconforto


    SER/VIR · O estado da experiência 2026 · ensaio 6 de 9

    Toda virada de ano eu registro os sinais que podem mudar a forma como vivemos, trabalhamos e somos servidos, e ao longo do ano destrincho cada um deles. Um sinal é uma tendência potencial ainda não confirmada: emergente, ambígua e sujeita a interpretações.

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    Na casa de campo da família da minha esposa, até um tempo atrás, não havia sinal de celular nem conexão à internet. A única forma de se comunicar com o mundo era por meio de um telefone fixo que ficava na sala. Em algum momento, talvez há uma década, instalaram internet (o sinal de celular ainda não chegou), e os encontros de família e entre amigos mudaram. Quem está presente fica menos presente, e quem não está acompanha tudo de longe em tempo real. O lugar ainda é incrível, mas a experiência de isolamento de passar uns dias lá não é mais a mesma.

    Nas últimas duas décadas, os smartphones se tornaram onipresentes e passaram a registrar cada momento de nossas vidas. Agora, além deles, temos câmeras em óculos, wearables, lojas, parques, muros de casas e condomínios e postes de trânsito nas ruas. Nossos rostos estão nos bancos de dados dos sistemas de segurança de prédios residenciais e comerciais. A boa e velha câmera precisava ser tirada do bolso e apontada. A nova câmera já está vestida e olha na mesma direção que nós.

    Registrar está deixando de ser um ato para se tornar uma condição normal da vida.

    Os benefícios são reais, claro. Quando damos ao Gmail acesso imediato a todo o histórico de mensagens em troca de buscas poderosas, o benefício supera o desconforto. É o mesmo quando usamos dispositivos que traduzem conversas em tempo real, descrevem o que está diante de alguém com baixa visão ou ajudam uma pessoa com perda de memória a recuperar informações do próprio dia.

    A Meta afirma que milhões de pessoas já usam diariamente seus óculos com IA. Por enquanto, todos os modelos têm uma luz de LED para indicar quando uma foto ou um vídeo está sendo capturado, e a empresa passou a desativar a câmera quando detecta que essa luz foi coberta ou adulterada (1). O cuidado revela um novo desafio de design: a tecnologia precisa ser boa não só para quem a usa, mas também para quem é capturado por ela (as pessoas que não compraram o dispositivo não aceitaram seus termos e talvez nem percebam que estão sendo gravadas).

    O mesmo acontece nos computadores e nas reuniões. O Recall, da Microsoft, salva capturas de tela periodicamente e permite reencontrá-las por linguagem natural; após as críticas, passou a exigir adesão e a armazená-las localmente (2). No Google Meet, o uso das anotações automáticas cresceu mais de treze vezes em 2025; no Teams, o Copilot já aponta, em tempo real, onde há discordância e como alguém reagiu a uma proposta (3). Ninguém precisa mais anotar nada e pode, em tese, se concentrar na conversa. O que antes desaparecia ao fechar uma janela ou ao encerrar uma “call” agora permanece disponível, pesquisável e exportável. Seremos mais eficazes, sim, mas também mais dependentes.

    O problema começa quando a captura deixa de ser visível. Granola e Plaud gravam sem que haja um robô identificado na sala, e as próprias empresas já recomendam avisar os demais (4). Hoje isso ainda soa como etiqueta. Se o percurso atual se mantiver, porém, ser gravado vai deixar de ser exceção para virar simplesmente um fato da vida.

    Há ainda um efeito colateral mais profundo de tanta câmera e registro constante: o desaparecimento do puramente efêmero. Aqueles momentos únicos que desapareciam ou ficavam apenas em nossas memórias. Uma conversa casual podia ser imprecisa, experimental, contraditória. Uma frase mal formulada morria ali. Esquecer algo, mais do que uma falha humana, era um mecanismo pelo qual as relações evoluíam e as pessoas mudavam de ideia.

    Quando tudo fica registrado, cada interação pode ser retirada do seu contexto e reavaliada no futuro com base em critérios que ainda nem existem. A memória deixa de ser reconstruída pelas pessoas envolvidas e passa a ser consultada como um arquivo. Ganhamos precisão, mas talvez percamos espaço para testar ideias, mudar de opinião e simplesmente seguir adiante.

    Nem mesmo o argumento de que registrar nos deixa mais presentes é tão simples. Um estudo publicado em 2026 identificou um efeito social da fotografia sobre a memória: o ato de fotografar uma experiência prejudicou não apenas a memória de quem fotografava, mas também a de quem estava ao seu lado sem fotografar. Ver o outro registrar desviou a atenção do momento compartilhado (5). Assim, a câmera não só preserva uma experiência, mas também a modifica.

    Então, o que muda para quem projeta serviços? Além de decidir quais dados vale a pena capturar, é preciso decidir quais interações devem terminar sem deixar rastro. Um atendimento de saúde, uma conversa de desenvolvimento, uma sessão de pesquisa ou uma negociação podem se beneficiar de memória institucional, mas também podem depender de vulnerabilidade, improviso e confiança, e essas qualidades desaparecem quando todos falam como se cada frase pudesse ser exibida fora dali.

    O futuro da privacidade talvez não esteja em impedir todo registro. Essa batalha parece perdida, porque o benefício imediato quase sempre supera o desconforto abstrato. Recuperar tudo, como num episódio de Black Mirror, é tentador demais. A oportunidade está em estabelecer limites que se ajustam à medida que o que hoje estranhamos passa a fazer parte da vida: retenções curtas, controle para quem cede os dados e, sobretudo, interações deliberadamente não registradas.

    Em um mundo de organizações e sistemas obcecados por guardar tudo, esquecer pode deixar de ser uma limitação técnica e tornar-se uma escolha de design. E o que hoje parece um atraso, como uma casa de campo incomunicável, já está voltando a ser um luxo em alguns lugares.


    Notas de rodapé:

    (1) A Meta afirma que milhões de pessoas usam seus óculos com IA diariamente. Os dispositivos têm um LED frontal que pisca durante a captura destinada à galeria; bloquear ou adulterar o indicador desativa a câmera nos modelos mais recentes (Meta). A empresa também pesquisa aplicações de assistência à memória e orientação espacial para pessoas com perda de memória (Meta).

    (2) O Recall salva capturas periódicas da tela para pesquisa posterior por linguagem natural. A Microsoft informa que o recurso é desativado por padrão, exige adesão explícita e autenticação pelo Windows Hello, processa os dados localmente e permite pausar, filtrar e apagar as capturas (Microsoft). As capturas também podem ser exportadas, inclusive de forma contínua, mediante autenticação e um código específico (Microsoft).

    (3) O Google informou, em janeiro de 2026, que o uso do “Take notes for me” no Meet havia crescido mais de treze vezes desde o início do ano anterior. O recurso registra a discussão, as tarefas e os próximos passos; o “Ask Gemini” responde perguntas durante a reunião (Google Workspace). No Teams, o Copilot sugere tarefas e responde em tempo real a perguntas como “onde discordamos?”, “como esta pessoa reagiu?” e “que pergunta pode fazer a conversa avançar?” (Microsoft).

    (4) A Granola não adiciona um robô à chamada: captura o áudio do dispositivo, transcreve a reunião e não armazena o áudio após a transcrição (Granola). A empresa oferece mensagens automáticas no chat e uma marca visível no vídeo para informar que a transcrição está ativa, e recomenda avisar os participantes no início (Granola). A Plaud também orienta os usuários a verificar as regras aplicáveis e documentar o consentimento quando necessário (Plaud).

    (5) Em quatro experimentos, pesquisadores encontraram que fotografar uma experiência prejudicou a memória posterior tanto de quem fez a foto quanto de um acompanhante que apenas viu o ato de fotografar. Quando o acompanhante não conseguia ver a captura, o efeito desaparecia, o que aponta para o desvio de atenção como mecanismo provável (Yu et al., 2026).


    Transparência sobre o uso de IA:
    Ferramentas de IA apoiaram o desenvolvimento deste artigo. O Codex (OpenAI, GPT-5) foi usado para pesquisar fontes, verificar afirmações jurídicas e tecnológicas e revisar a estrutura e a redação a partir do rascunho original. O Claude (Anthropic, Opus 5.5) fez a revisão editorial, comparou o texto aos anteriores da série e sugeriu cortes de extensão e de foco, aplicados pelo autor. O Grammarly foi usado para revisão de texto. O relato pessoal, a tese sobre o desaparecimento do efêmero, os argumentos centrais e todas as decisões editoriais são do autor.

  • 5. Os robôs humanoides estão chegando

    5. Os robôs humanoides estão chegando

    Este é o quinto texto da série em que mergulho, um a um, nos sinais que registrei na transição de 2025 para 2026. O primeiro artigo, publicado na newsletter da Livework, apresentou todos brevemente (veja aqui). Lembrando que um sinal é uma tendência potencial ainda não confirmada: enquanto tendências têm direção clara e evidências robustas, sinais são emergentes e sujeitos a diversas interpretações. Registrá-los é a minha forma de refletir sobre as mudanças que entendo impactarão substancialmente as nossas vidas no futuro.

    Boa leitura!


    Os robôs humanoides estão chegando

    Quando a IA passa a existir no mundo real

    2025 era para ter sido o ano dos agentes de IA. Até foi, mas para uma minoria que aprendeu a domá-los, como desenvolvedores. A principal promessa de automatizar tarefas complexas e de várias etapas ainda esbarrou em limitações práticas, como erros que se acumulam em sequências longas, dificuldade em contextos ambíguos e a necessidade de supervisão humana constante, o que anulou boa parte do benefício prometido (1).

    Escrevi o parágrafo anterior alguns meses atrás e ele já envelheceu mal. Hoje já vemos agentes se disseminando, por mais que ainda lutem para se tornarem realmente úteis em escala. E se eles sofrem no digital, onde errar não custa quase nada, seria razoável esperar ainda menos de agentes com corpos, em que errar pode resultar em um copo quebrado (ou algo ainda pior).

    Só que os robôs humanoides estão realmente chegando, é inevitável. O NEO, robô caseiro da 1X (e meu preferido), está à venda por US$ 20 mil (ou por US$ 499 por mês). Ele se propõe a prestar serviços caseiros: abre a porta de casa, organiza os cômodos e pega objetos para você. Quando a autonomia não dá conta, um operador humano assume o controle remotamente, e o robô vai aprendendo a cada iteração (2).

    Nas fábricas, aliás, que talvez sejam o principal cenário claro de ROI, os robôs deixaram de ser um sinal e se tornaram uma tendência, com grandes contratos comerciais sendo assinados. Depois de ajudar a montar mais de 30 mil carros com a geração anterior, a BMW contratou uma frota de robôs para sua planta de Spartanburg (3). A Tesla iniciou a produção do Optimus em Fremont e a própria Boston Dynamics, depois de anos (ou décadas?) nos impressionando com as demos de movimentação de seus robôs, agora os treina com modelos de comportamento em parceria com a Toyota. São corpos que já sabiam se mover e agora começam a aprender a se tornar úteis (4). Por fim, Unitree e AgiBot, ambas chinesas, devem responder por quase 80% dos robôs humanoides embarcados pela China, o maior mercado do mundo, em 2026, a um custo de produção de um décimo do estimado para o Optimus (5).

    Então, se 2025 foi o ano da promessa dos agentes, 2026 deve ser lembrado como o ano em que começamos a conviver com robôs. Alguns, mais simples, lhe servirão um café (como já aconteceu no ano passado comigo numa loja da MUJI em Nova Iorque ou no meio de uma rua em Shanghai) ou um drink (como já se observa em bares ou hotéis); outros, mais complexos, lhe servirão de companhia ao sair de compras, carregando coisas e ajudando nas decisões.

    Conteúdo do artigo
    Robô fazendo café na MUJI em NYC (2025)

    Quem os projeta (ou adota) deverá decidir entre dois caminhos: o da humanização, com robôs que falam e parecem cada vez mais humanos, ou o da objetificação, com robôs concebidos para serem percebidos como mais um eletrodoméstico. E a resposta não é tão óbvia quanto pode parecer. Até certo ponto, traços humanos aumentam a aceitação, mas depois despencam no vale da estranheza (6). Minha hipótese é que a escolha certa depende da intenção da experiência, distinção que explorei no texto anterior desta série. Nas interações utilitárias, como a de um robô que entrega um pedido, a objetificação pode ser uma virtude, pois queremos eficiência, não conversa. Já nos raros momentos em que a hospitalidade carrega valor em si, talvez haja espaço para algo mais próximo de nós.

    Há ainda uma variável crucial e essencialmente de design: a confiança. O modelo do NEO significa, na prática, que um operador humano pode enxergar dentro da sua casa numa era em que a credibilidade virou moeda escassa (argumento do primeiro texto desta série). Assim, não imediatamente, mas no futuro, é possível que as empresas que se proponham a colocar robôs nas casas e nos espaços públicos disputem menos pela capacidade técnica de suas engenhocas e mais pelas promessas cumpridas de privacidade e segurança. Nesse território, mesmo que ainda esteja fora desse mercado, a Apple tem se posicionado claramente pró-segurança e pró-privacidade, enquanto outras gigantes ignoram essas virtudes. Deve ser por isso que o NEO é feito com materiais quentes e expressões “fofas”. Humanizar significa reduzir a ameaça em um momento em que a IA gera estranheza e, para muitos, repulsa.

    E ainda tem uma pergunta que sigo sem saber responder: qual será a autonomia deles para circular pelas ruas, sem seus proprietários? Quando fui à China, em 2024, dividi o elevador do hotel com um robô que levava pedidos de comida aos quartos. No primeiro dia, tirei fotos, fiz vídeos, contei para todos no Brasil. No último, nem reparava mais nele. Em quatro dias, o que parecia extraordinário virou paisagem. O mesmo acontece com os carros autônomos que se tornaram frequentes em várias grandes cidades dos Estados Unidos.

    É nessa janela entre o espanto e a invisibilidade que veremos a chegada dos robôs às nossas vidas. E, para quem projeta serviços, o trabalho agora é decifrar como esses agentes que habitarão o mundo físico servirão e serão servidos por suas organizações.


    Notas de rodapé:

    (1) O melhor agente testado no TheAgentCompany, benchmark da Carnegie Mellon que simula um ambiente real de trabalho, completou cerca de 30% das tarefas de forma autônoma (Xu et al., 2025). A matemática ajuda a entender: um agente com 85% de acerto por passo tem cerca de 20% de chance de completar uma sequência de dez passos. O Gartner projeta que mais de 40% dos projetos de IA agêntica serão cancelados até 2027 e estimou que, dos milhares de fornecedores ‘agênticos’, apenas cerca de 130 ofereciam agentes genuínos — o chamado agent washing (SDxCentral).

    (2) O NEO é entregue realizando tarefas básicas de forma autônoma — abrir portas, buscar objetos, acender luzes; para as mais complexas, um teleoperador humano assume o controle em sessões agendadas e autorizadas pelo dono, que pode borrar pessoas e definir zonas proibidas da casa (Engadget). A estética é deliberada: corpo revestido em malha 3D e aparência propositalmente neutra — ‘mais como um sofá do que uma geladeira’, nas palavras do designer da 1X (eWeek). A fábrica de Hayward, Califórnia, iniciou a produção em escala em 30 de abril de 2026, com os mais de 10 mil NEOs do primeiro ano de produção esgotados em cinco dias (1X).

    (3) Após piloto de onze meses com o Figure 02, a BMW assinou contrato comercial para uma frota do Figure 03 em Spartanburg (The Robot Report).

    (4) A parceria Boston Dynamics + Toyota Research Institute demonstrou o Atlas executando sequências longas de tarefas via Large Behavior Models — capacidades que antes exigiriam programação manual (Boston Dynamics).

    (5) A TrendForce projeta crescimento de 94% na produção chinesa de humanoides em 2026, com Unitree e AgiBot concentrando quase 80% dos embarques chineses, maior mercado global de robôs (TrendForce). A Unitree, que produz a ~US$ 9 mil por unidade, planeja embarcar 20 mil robôs em 2026 (Rest of World; eWeek). No agregado, o Morgan Stanley estima um mercado de US$ 5 trilhões até 2050 (Morgan Stanley).

    (6) Meta-análise no Journal of the Academy of Marketing Science sobre antropomorfismo em serviços (Blut et al.); estudos em restaurantes testam o padrão do vale da estranheza (International Journal of Hospitality Management).


    Transparência sobre o uso de IA:

    Ferramentas de IA apoiaram o desenvolvimento deste artigo. O Claude (Anthropic, Fable 5) atuou como editor: revisou a estrutura e o texto do rascunho original, questionou argumentos e sugeriu contrapontos, pesquisou as referências das notas de rodapé e verificou fatos e fontes antes da publicação. O conceito do artigo, os argumentos centrais, as experiências relatadas e todas as decisões editoriais são do autor, que escreveu e revisou o texto em sua própria voz.